Caça às bruxas

Por Communicare

De acordo com pesquisa, 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual no último ano

Por Gabriel Reis

O conto a seguir é baseado em vivências de pessoas reais.

Quando tudo começou eu me chamava Júlia, tinha 9 anos e não havia tido outro nome até então. Nunca havia pensado que teria outro, mas eles acabavam se tornando estatísticas nos jornais, sendo divulgados diariamente em programas de TV e no fim, acordava me chamando Vanessa, Renata ou qualquer nome ainda não engolido pelos números. 

Era uma das primeiras vezes em que minha mãe me deixava ir à estabelecimentos mais afastados de casa no meu bairro, afinal, naquela época até ele havia se tornado estatística entre um dos bairros mais violentos de São Paulo. Que mania tinham os mais velhos em tornar tudo simples números, sem profundidade, com suas formas delimitadas. Definitivamente não fazia sentido para mim. 

Cheguei no mesmo armazém que ia com meus pais desde sempre, tudo era estava igual, mas naquele dia o Sr.Zé, dono do armazém, me surpreendeu com uma incrível promoção de sorvetes. Dá pra imaginar como logo no primeiro dia que vou sozinha naquele mercadinho de bairro sou agraciada com algo do tipo? “Sorte grande, Júlia” pensei. 

O Sr.Zé me informou que tudo o que eu precisaria fazer para ganhar a promoção de cinco sorvetes totalmente de graça, seria guardar um segredo. Eu não gostava de esconder coisas da minha mãe, e como ela era minha fiel confidente, resolvi deixar os sorvetes de lado e voltar para casa. 

Não entendi por que Zé ficou insistindo tanto, a promoção foi até dobrada para tentar ganhar meu sigilo sobre aquele enorme segredo. Ainda assim, preferi voltar para casa. Me despedi do dono do armazém com ele me dando um longo abraço que até então nunca havia acontecido em ocasiões anteriores, talvez ele estivesse sentindo falta dos meus pais estarem comigo. 

Na volta para casa fui tomada por um incômodo, e sem perceber meu nome “Júlia” havia se tornado estatística, nem meu apelido conseguiu escapar disso tudo. De repente, a única alternativa foi me tornar Clara, por quanto tempo? Não sei, mas de algo tinha certeza, ele não duraria tempo o bastante para me acostumar. 

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/pesquisa-mostra-que-86-das-mulheres-brasileiras-sofreram-assedio-em

Só mais tarde em minha vida fui entender o que estava acontecendo. Nós mulheres estávamos sendo vítimas de uma verdadeira caça às bruxas, e advinha quem eram os responsáveis? Isso mesmo! As taxas e estatísticas. Por quê elas simplesmente não nos deixavam em paz com nossos nomes, apelidos, corpos e jeitos de ser? Até hoje tento entender. 

O mais engraçado, é que isso não acontecia com a maioria dos homens, o Sr.Zé sempre continuou sendo Sr.Zé. Enquanto isso, minha mãe, minhas primas e até a minha avó, vez ou outra nos pegávamos com nomes diferentes. Já nem sei quantas Marias tive em minha família, o jeito foi se adaptar. 

Aos 15 anos eu me lembro de ter trocado de nome no mínimo três vezes em uma viagem que fiz para o Rio de Janeiro. Parecia que a cada ano o prazo de validade deles se tornava menor, e logo viravam estatística. No fim, resolvi pesquisar mais sobre o assunto e percebi que muitos alegavam que um dos melhores jeitos para se proteger das estatísticas era se cobrir com o máximo de roupas possíveis, pois pelo que parece as taxas eram atraídas por qualquer camada de pele visível. 

Mas o que eu estava para entender era que como um vírus, as estatísticas também podiam me atingir por diversas formas, independente de roupas, disfarces ou qualquer outra coisa que eu tentasse. Estava encurralada.

Fonte: https://www.uol.com.br/universa/especiais/ser-mulher-no-brasil-machuca/#imagem-8

Certa vez, ainda aos quinze, tive um professor chamado Rodrigo, outro caso nada raro de homens que nunca haviam mudado de nome, mas que transmitiam o vírus das taxas, estatísticas e todos aqueles números que já não aguentava mais ver nos noticiários. Ele dava aulas de história em meu colégio, um lugar que até então não havia sido tomado por “você sabe quem”. 

Rodrigo, era muito simpático, brincalhão e os meninos em especial o idolatravam, jamais imaginaria que ele carregava aquelas estatísticas consigo. Tudo começou de maneira imperceptível, só hoje em dia consigo entender mais claramente como tudo estava na ponta do meu nariz e não consegui ver. 

Ele usava de analogias para se referir a certos materiais escolares, principalmente de nós meninas, trazia piadas de duplo sentido que até hoje não entendo todas e o pior, ninguém notou todos esses sinais. Começou a chamar em suas aulas garotas para serem suas ajudantes, as deu apelidos e se referia à seus corpos de maneira selvagem. Ainda assim ninguém percebeu como as estatísticas estavam atingindo todos ali. 

Em suas aulas já perdi a conta de quantos nomes tive. Elizabete, Tereza, Marina, Fernanda, Joana, Jéssica, Rafaela. Tantos, tantos, tantos. 

Fonte: https://www.opopular.com.br/noticias/ludovica/comportamento/46-4-dos-jovens-j%C3%A1-sofreram-ass%C3%A9dio-sexual-na-escola-1.1261415

O ápice foi quando ele começou a fazer gestos que denunciavam as estatísticas que escondia, de maneira escancarada. Tive medo de contar para alguém, afinal, ele ainda era o queridinho de vários alunos. Mas um grupo de meninas, um pouco mais corajosas que eu na época, fizeram uma reclamação à diretora e uma assembleia foi feita, entre pais, alunos e o professor. 

Que talento ele tinha para a lábia, logo quando achei que fosse ser forçado a trocar de nome pela primeira vez, ele conseguiu escapar. Ninguém ali estava percebendo o que estava acontecendo, consideraram algo normal e no fim, tudo voltou a ser como era antes. Certa vez, algumas amigas e eu até fizemos um sorteio para saber qual nome teríamos naquela semana. Ao contrário de nós, Rodrigo até hoje se chama Rodrigo e continua sendo idolatrado por aí. 

Aos 21 já havia desistido de tentar fugir das estatísticas, e provavelmente eu não era a única. Passava por meninas que eram ou já foram do meu ciclo social e nem mesmo as reconhecia, tamanho era o número de taxas que as cobriam. Era mais vergonhoso ainda quando sem querer trocava seus nomes, devido aos tantos outros que também adquiriram ao longo da vida.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-06/pesquisa-mostra-que-97-das-mulheres-sofreram-assedio-em-transporte 

Já perdi as contas de quantas vezes, só de colocar o pé para fora de casa alguns daqueles números me atingiam. De certa forma sinto que fui forçada a aprender a conviver com esse massacre silencioso. A entender que só quando as estatísticas chegam até você e você se torna um mero número nos jornais, passa a perceber quantas outras já estavam ali. 

O meu nome? Eu não sei, quem sabe hoje ele acabe sendo o mesmo que o seu.