O Caso Evandro: como o sensacionalismo pode definir um julgamento.

Por Communicare

Entenda o caso do Evandro, que ocorreu em 1992 e repercute até hoje.

Por Estela Araújo

Foto de Estela Araújo

O CASO

Essa história começa em Guaratuba, Paraná, nos anos 90, mais especificamente, no dia 6 de abril de 1992, quando  Evandro Ramos Caetano desapareceu. Após uma semana de busca, o corpo de Evandro é encontrado sem as mãos, com o cabelo raspado, os pés cerrados, e com o tórax aberto sem alguns órgãos; uma verdadeira cena de horror. A grande pergunta é: quem matou Evandro? 

  À frente do caso, o grupo da polícia civil de Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial (TIGRE), ficou meses investigando o ocorrido, sem sucesso. Após um tempo, o grupo da polícia militar Águia aparece com o caso solucionado, e sete pessoas acusadas, a maior parte com confissões gravadas. São elas: Celina Abagge, Beatriz Abagge (mulher e filha do prefeito respectivamente), Osvaldo Marcineiro, Vicente de Paula, Airton Bardelli, Davi dos Santos Soares e Sérgio Cristofolini. Nas fitas, foi confessado por eles o motivo da morte: um sacrifício em um ritual satânico, em busca de dinheiro e poder, a mando de Celina e Beatriz, com os mais sórdidos detalhes possíveis, inclusive o preço que foi pago pelo ato.

No entanto, as confissões foram feitas sob tortura pelo grupo AGUIA da Policia Militar. Tudo isso é esclarecido e falado por todos os envolvidos no caso durante seus respectivos julgamentos, o primeiro aconteceu em 1998, onde é considerado o mais longo julgamento da história do Brasil. Com duração de 34 dias,  Beatriz e Celina Abagge foram julgadas e aconteceram, posteriormente, outros julgamentos com todos os outros acusados, o último ocorreu em 2011. Atualmente, estão todos absolvidos e a Secretaria do Estado de Justiça, Família e Trabalho do Paraná criou um grupo de trabalho para identificar falhas no processo de investigação.

Para mais detalhes sobre o caso, há o Podcast Projeto Humanos: O caso Evandro, feito pelo Ivan Mizanzuk e disponível no Spotify, contendo detalhes de todo o caso e conta com investigações feitas pelo criador. A série documental inspirada no podcast, “O caso Evandro”, disponível na plataforma de streaming Globoplay, também é uma referência sobre os eventos do crime.

A MÍDIA

Com a condenação dos acusados, os cidadãos protestaram e até apedrejaram a casa do prefeito da época, Aldo Abagge.  O medo e o caos instaurado, a mídia viu uma oportunidade de criar uma história. Diogenes Caetano, primo de Evandro, foi peça chave no caso, visto que estava sempre na televisão em entrevistas, auxiliando a polícia com sua própria investigação. 

O caso que, anteriormente, era conhecido como “As Bruxas de Guaratuba”, incitando que Celina e Beatriz eram bruxas que sequestravam crianças para sacrificio, tudo criado e inventado para criar uma história em cima de um caso confessado sob tortura, algo banal, que nos anos 90 foi comprado pela população; gerou, ainda, outras discussões, visto  que  o acontecimento era relacionado com rituais satanistas ou até mesmo oferendas à Exú, já que um dos acusados é  pai de santo, fazendo com que as pessoas banalizassem  as religiões de matriz africana.

Ná época, muito se falava em linchamento público, é  o caso do Secretario de Sugrança Pública do Paraná ‘’Pessoalmente irei buscar essas pessoas na penitenciaria e as levarei à praça em Guaratuba, onde as liberarei em nome da justiça’’, diz o Secretario em uma entrevista. Apesar das incongruências, tudo isso foi amplamente divulgado e comprado pela população, mesmo sendo um grande espetáculo sensacionalista criado pela imprensa da época, trazendo à tona coisas que não faziam parte do caso, mas que distorciam para parecer ser algo relacionado à bruxas ou ao satanismo e acusando novamente pessoas que foram submetidas a tortura, diminuindo suas dores.

ABAGGE

Beatriz recebeu perdão de pena pelo Tribunal de Justiça do Paraná em 2016, e hoje trabalha em Guaratuba como terapeuta ocupacional, também cursou direito inspirada pelo seu próprio caso. Ela fala abertamente sobre o ocorrido e o papel da imprensa não só em relação ao que viveu, mas deste sistema de forma geral. “A imprensa sempre mergulhada na febre do sensacionalismo e com isso antes mesmo do devido processo legal todos nós já estávamos condenados. Penso que sinonimo de imprensa é imprensa, de resto ela comete crimes como qualquer cidadão. A solidariedade vai varrendo a indiferença que a nossa sociedade sempre cultivou diante das causas e dos efeitos das injustiças porque quando uma sociedade se omite, se cala diante da verdade dos fatos, é mais difícil reconhecer que errou. E para a mídia é a mesma coisa. Já viu as reparações publicadas em jornais? Elas têm o mesmo destaque das manchetes acusatórias? Jamais. Não sei se o julgamento seria diferente, mas no mínimo os jurados se sentiriam mais à vontade para uma decisão’’, comenta Abagge sobre o caso.

Com a repercussão do podcast e do documentário,  as pessoas passaram a entender a verdade sobre o caso e começaram a olhar para os acusados de forma diferente. Beatriz ressalta a importância do trabalho de Ivan Mizanzuki, visto que a partir das produções foram encontradas as fitas originais das torturas, das quais provam-se a brutalidade que os 7 acusados passaram ao serem obrigados a assumir um crime que não estavam em suas mãos. ‘’Fomos torturados para confessar um crime que jamais existiu’’, relembra.

Ainda sobre a importância do documentário e sua repercussão, Beatriz comenta sobre como a sociedade passou a ver o caso e, consequentemente, perceberem a grande falha da justiça brasileira. ‘’(…) As que não perceberam pelo menos foi plantada a semente de que a justiça é falha, mesmo porque essa é realizada por seres humanos passíveis de preconceitos e especialmente de pessoas que querem prevalecimento pessoal através de acusações injustas.’’ diz.

Taxada de bruxa durante anos, Abagge comenta como o vulgo pode a perseguir pelo o resto de sua vida,  além de refletir sobre os ataques de ódio que sofreu. “Hoje e sempre quando houve ataques de ódio eu poderia decidir dentro de mim o que iria me afetar, pois eu escolho qual a minha reação, eu exerço a minha opção. Isso pra mim é dignidade! Muitos não têm dignidade, e é exatamente assim que vejo pessoas que tentam me destratar, me ofender, me injuriar ou me destruir. Eu não sou manipulada pelo tratamento que recebo de outras pessoas. “Ninguém pode ferir-me sem meu consentimento”, encerra com a frase de Eleanor Roosevelt.

Quando questionada sobre a especulação de um possível culpado, Beatriz ressalta jamais se manifestar sobre isso, já que o que passou é um norte para nunca acusar alguém injustamente, ainda que com suas convicções. Comenta, também, sobre uma luta árdua de 29 anos por justiça, mas ressalta que o caso nunca foi empecilho para progredir e explorar outras áreas de sua vida.“Como disse anteriormente, não sou manipulada pelo pensamento que outras pessoas têm a meu respeito. Continuei trabalhando, saindo, casei, tive mais uma filha, me separei, namorei, dancei, fui ao cinema, viajei, enfim vivi, mas sempre lutando em busca da verdade”, destaca’

Hoje, Beatriz luta por justiça utilizando também as suas redes sociais. Recentemente criou um canal no Youtube, em que deixa disponível todas as lives que participa sobre o caso.  

DECORRÊNCIA 

O caso Evandro é um grande exemplo de falha na justiça populacional brasileira. Atualmente, podemos fazer uma relação com a cultura do cancelamento, quando não buscamos a verdade e julgamos antes mesmo de checar a veracidade de algo. Talvez, na época, isso não fosse tão possível, já que a única fonte das pessoas era aquilo que viam na televisão ou rádio, hoje podemos mudar essa situação e sempre buscarmos questionar aquilo que não é provado judicialmente.

 A justiça prisional necessita de uma grande reforma, visto que julgou mal e sem provas todos os acusados, utilizando-se apenas de confissões feitas sob torturas. Vemos isso acontecer desde os anos 90 com o caso do Evandro, até hoje com o caso da Marina Ferrer por exemplo, com os culpados soltos, e os inocentes aprisionados e julgados por todos. Felizmente com muita luta podemos mudar isso, e contornar essa situação deprimente que vivemos. Seguimos juntos!