Representatividade na Mídia e o Whitewashing

Por Communicare

O que é representatividade midiática e como ela impacta a vida de jovens 

Por Péricles Hortênsio

Imagem: Reprodução/Pinterest

Você já assistiu à minissérie “Hollywood”? Criada e dirigida por Ryan Murphy, a série da Netflix reimagina como seria a indústria do cinema se, durante os anos 40, atores negros, homossexuais e/ou asiáticos tivessem tido uma chance no estrelato de Los Angeles.  

Dentre tantas as cenas impactantes da série, uma se destaca logo no segundo episódio. O personagem Raymond Ainsley, cineasta em busca de uma chance na indústria, procura Anna May Wong – uma renomada atriz de descendência chinesa – trazendo a oportunidade de estrelar sua mais nova produção: O Anjo de Xangai.  

Ao apresentar a ideia a um dos produtores do estúdio, este diz que não seria uma boa opção convidá-la, pois, no passado, Anna May foi a melhor no teste para um longa que se passava na China e contava com uma protagonista chinesa, mas foi substituída por uma (atriz) branca, em razão de os produtores acharem que esse fator tornaria o filme mais “limpo” e “aceitável”. Como consequência, quem a substituiu ganhou um Oscar de Melhor Atriz, enquanto Anna May se afundou no álcool.  

Legenda: Pôster da Série Hollywood, disponível na Netflix | Foto: Reprodução/Divulgação Netflix. 

Apesar de ser uma obra ficcional, “Hollywood” retrata uma problemática que perpetuou em inúmeras produções Estadunidenses ao longo do último século: O Apagamento de Pessoas Não Brancas.  

Com as redes sociais, essa problemática recebeu um nome: Whitewashing, um termo que pode ser traduzido como “embranquecimento”. A palavra “washing”, em inglês, indica o ato de lavar alguma coisa, sugerindo a ideia de que certas produções estariam “lavando” o cinema com pessoas brancas, priorizando esta etnia em detrimento de outras. Ou seja, escolhendo atores brancos para interpretar personagens que originalmente são negros, asiáticos, indígenas, etc. Esse fenômeno ocorreu não apenas na Indústria Cinematográfica, mas também na (Indústria) da Música.  

Durante a década de 50, Elvis Presley ficou popularmente conhecido como o Rei do Rock, propagando o estilo musical nos Estados Unidos. Contudo, diversos artistas já tocavam o estilo antes, dentre eles, Sister Rosetta Tharpe. 

Chamada de “Mãe do Rock” ou “Madrinha do Rock”, Rosetta ficou popular por suas canções que misturavam blues, jazz, gospel e country, sendo, inclusive, a primeira artista na história a colocar músicas gospel na Billboard – a principal parada musical dos Estados Unidos. A cantora foi considerada a propulsora do rock após lançar a canção Strange Things Happening Everyday, em 1944.  

Ainda nos Estados Unidos segregacionista dos anos 50, Sister Rosetta saiu em turnê com The Jordanaires, banda formada apenas por músicos brancos que, mais tarde, acompanharia Elvis Presley em suas apresentações. Com sua música, a artista influenciou grandes lendas do rock, como Chuck Berry, o já citado Elvis Presley e Little Richard. A questão é que muitos se lembram de Elvis e concordam com a sua contribuição para o rock, algo que não aconteceu com Sister Rosetta.  

Com esse apagamento, pessoas não brancas sentem dificuldade em se enxergar diante da mídia, especialmente quando tais produtos midiáticos são produzidos fora do país. O Brasil, por exemplo, mantém uma relação histórica de dominância por parte dos Estados Unidos, com isso, diversos produtos culturais produzidos por lá acabam sendo exportados para cá.  

Leonardo Moreira, estudante do ensino médio, afirma que essa atenção para a mídia estadunidense, muitas vezes, ocorre de forma involuntária, pois crescemos em contato frequente com ela: “Mesmo ainda consumindo diversos trabalhos nacionais, percebo que acabo dando mais atenção ao mercado cultural estadunidense ou internacional de forma geral”.  

Ele também acredita que exista uma certa influência desde a infância “eu cresci na van escolar na qual minha mãe trabalha e sempre estive ouvindo música internacional, assim como filmes de animações das grandes produtoras internacionais, e carrego esse costume até os dias de hoje.” – acrescenta.  

O fenômeno do apagamento de pessoas não brancas na mídia estadunidense, somado ao fácil acesso e amplo consumo dessas mídias no Brasil, resulta no fato de diversas crianças crescerem sem o sentimento de pertencimento e representatividade em âmbito cultural. 

Mas afinal, Representatividade importa? 

O Dicionário Online de Português define “representatividade” como “Qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz com que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome.” Se tratando da mídia e de produtos culturais, ambos como objetos de estudo, a Representatividade possui um teor de subjetividade e identidade dos indivíduos que integram determinado grupo, seja ele de gênero, racial, social, etc.  

Isso significa que a representatividade não é apenas a organização de grupos buscando que seus interesses sejam representados e garantidos, mas é, sobretudo, parte da formação do que é o indivíduo que compõe esse grupo. Existem inúmeras razões para justificar a importância que a representatividade possui nas relações sociais. Algumas destas, identificadas pela autora Joan Scott, são oreconhecimento e a manutenção entre a igualdade e a diferença, entredireitos individuais e identidades grupais. Afinal, é esta tensão que possibilita caminhos mais democráticos e plurais, em que a diversidade é, de fato, normalizada. 

Nas produções estadunidenses, essa representatividade é pequena ou quase nula. Paloma Valéria, estudante de Biologia da UFABC, diz que a forma como a mídia incorporava personagens parecidas com ela a deixavam desconfortável: “A gente sempre queria ser a protagonista, porém essas eram sempre as brancas legais e populares, enquanto as negras eram as secundárias.” Ela conta que em brincadeiras na infância, quando dizia que queria ser a principal, outras crianças falavam “você não pode ser a principal porque você não se parece com ela” e isso a frustrava muito, pois não sentia orgulho em ser da forma que é. 

 “A forma como eu sou nunca era priorizada ou representada de uma maneira boa.” – Paloma Valéria 

Também em entrevista, Luciana Midori, estudante de enfermagem, afirma que nas poucas ocasiões em que ocorria a inserção de personagens não brancos em papéis principais, geralmente eram carregados de estereótipos: “Os asiáticos, principalmente nos desenhos animados, são em sua maioria representados através de estereótipos extremistas, seja como uma pessoa ‘punk’ de cabelos coloridos, uma pessoa que não faz nada além de estudar, ou até mesmo o alívio cômico”. E completa “São fora da realidade, e dificilmente crianças se sentem representadas por isso, o que foi o meu caso”.  

Atualmente, a pressão do público em produtoras de filmes torna possível que haja mais representatividade midiática em suas produções, no entanto, essa ainda é mínima se comparada com anos de apagamento da indústria. Com isso, é preciso que tenham mais produções diversas, tanto estadunidenses quanto brasileiras, em que os personagens não brancos sejam representados de uma maneira realista e não apenas atrelados a estereótipos. Da mesma forma, se torna necessário a atribuição de créditos a essas pessoas por suas contribuições na cultura popular – tal como no meio musical, por exemplo.