Ageismo em Hollywood: mais um reflexo da cultura machista

Por Communicare

Por Ana Clara Souza

O famoso letreiro de Hollywood

Foto: Reprodução GetYourGuide

A distorção etária presente na indústria cinematográfica não é uma novidade, já que diversas vezes é possível observar os atores e atrizes realizando papéis que não condizem com a sua idade real. Nesse sentido, para exemplificar tal cenário destacam-se a série Elite (espanhola) e  Bridgerton (estadunidense), ambas originais da plataforma Netflix, nas quais adultos de até 30 anos interpretam jovens entre quinze, dezesseis e dezessete anos.

Todavia, partindo agora da análise da indústria Hollywoodiana, do seu poder financeiro e sua influência cultural, nota-se como o machismo enraizado na sociedade se reflete em mais uma esfera, nesse caso na cinematografia. Assim, uma situação já complexa como é o caso da distorção de idades nesse meio, se torna uma problemática ainda mais prejudicial às mulheres, já que a falta de uma de igualdade de gênero propicia essa conjuntura de opressão.

Dessa forma, devido a essa deturpação da idade na indústria do entretenimento, surge o conceito do ageismo, uma forma de discriminação contra pessoas baseado em sua idade. Entretanto, como foi visto, devido ao machismo se refletir também no âmbito do cinema, o fenômeno ageísta passa a atingir majoritariamente as mulheres, fazendo com que atrizes jovens interpretem mulheres maduras, o que tem como consequência uma infantilização das mulheres e uma erotização da infância.

Em vista disso, é possível evidenciar como o machismo é uma prática estrutural e muitas das vezes difícil de ser percebida por aqueles que não sofrem com a sua opressão, apesar de possuir engrenagens em todos os cenários possíveis. Logo, quando não contratam mulheres devido a sua faixa etária apesar de possuírem a idade semelhante a da personagem a ser interpretada, é gerado uma estereotipação do sexo femino como belas (devido à pressão estética) e principalmente jovens, concepções essas que acabam reforçando ideias machistas na sociedade.

Esteageismo feminino provoca a criação de expectativas negativas e falsas a respeito do amadurecimento das mulheres, fazendo com que elas se submetam a diversos procedimentos estéticos para parecerem mais jovens. Essa questão gera um círculo vicioso, pois o machismo estrutural ao se refletir no ageismo em Hollywood, colocando mulheres em papéis referentes a idades não correspondentes às suas na realidade, influencia o meio social a reforçar a opressão de gênero por meio da pressão estética e até da erotização da infância feminina , já que “quanto mais jovem melhor”.

Sob essa ótica, destacam-se casos em que mulheres sofrerem esse tipo de preconceito pautado na idade, como no Globo de Ouro de 2015, em que Tina Fey e Amy Poehler brincaram com Patricia Arquette, indicada pelo filme “Boyhood: Momentos de Uma Vida”. Na brincadeira foi dito: “‘Boyhood’ prova que ainda há ótimos papéis para mulheres com mais de 40 anos, desde que você seja contratada antes dos 40”, realizando um trocadilho (verdadeiro, entretanto), pois se refere a um filme que levou 12 anos para ficar pronto, assim a atriz tinha 28 anos no início. 

  Maggie Gyllenhaal, de 37 anos, revelou a The Wrap (site americano de notícias) que foi considerada “velha demais” para interpretar o par romântico de um homem de 55 anos, mostrando como que quando se trata de distorção de idade, Hollywood tem um lado:o dos homens. Da mesma forma, Meryl Streep também se posicionou em uma entrevista à revista People, em que afirma que após os 40 anos ela começou a receber convites para fazer bruxas e acrescenta dizendo que Hollywood está obcecada pela juventude feminina.

Nesse sentido, quando a indústria cinematográfica realiza essas ações, ela demonstra apoiadora do posicionamento de que as mulheres se tornam descartáveis ao envelhecer. É gerado nelas o sentimento de sempre estarem adiantadas ou atrasadas para algo, como se nunca estivessem na idade ou no tempo certo, pois quando se é mulher a idade nunca é a certa, todavia, para homens, tal fator não importa: eles sempre estarão na idade adequada.

Posto isso, é evidente que além do machismo esse cenário se perpetua por não haver mulheres suficientes em Hollywood que possam mudar esse sistema por dentro. Evidenciando-se a importância de movimentos com o MeToo e Times’s Up, que ocorreram nos últimos anos e levantaram a pauta da desigualdade de gênero presente na indústria cinematográfica, porém, ainda há muito o que mudar e progredir.

Os produtores e os diretores da indústria hollywoodiana são predominantemente homens e brancos, que por não serem afetados pela questão social, não compreendem a magnitude da problemática. Visto que o ageismo não prejudica os homens, pelo menos não expressivamente, pois os famosos “galãs do cinema” permanecem em filmes e personagens não importando sua idade, como o ator Harrison Ford que aos 79 anos fará o quinto filme da franquia Indiana Jones, que será lançado em junho de 2023 quando o ator já estiver com 80 anos.

É perceptível a importância de atores e atrizes mais experientes possuírem uma maior capacidade de interpretação, por isso, a crítica realizada não se trata de homens mais velhos estarem presentes na cinematografia, mas da disparidade em comparação ao fato das mulheres de Hollywood serem descartadas ao atingirem seus 50 e poucos anos. A lógica citada acerca da equivalência entre idade e experiência, devido às concepções machistas e seus reflexos sociais, só é aplicada quando o pronome é masculino.