Fórmula 1: O dinheiro está acima da segurança?

Por Communicare

GP da Arábia Saudita é motivo de críticas devido ao contexto geopolítico

Por Samira Batalha

Explosão ao fundo da pista durante o treino livre

Foto: Reprodução Twitter

O circuito do último domingo (27) da categoria mais famosa do automobilismo, a Fórmula 1, gerou muitas polêmicas devido ao lugar que foi sediado. Além de ser um país que desrespeita os direitos humanos, no início dos treinos livres do final de semana, uma bomba explodiu na cidade, causando uma tensão ainda maior entre os pilotos. Após um acidente perigoso na pista, todos se reuniram e a corrida foi mantida. A pergunta que precisa ser respondida pelos organizadores é: até quando o dinheiro falará mais alto que a segurança dos pilotos?

   A Arábia Saudita foi escolhida para sediar uma corrida pela primeira vez em 2021, sendo, a partir dali, alvo de críticas. O país é muito importante no contexto geopolítico, uma vez que contém 22,4% das reservas petrolíferas mundiais, segundo a Opep(Organização dos países exportadores de petróleo). Porém, eles não reconhecem a Declaração dos Direitos Humanos, um documento essencial para a liberdade dos povos e para a democracia. O Estado justifica o não reconhecimento por ser uma monarquia religiosa, que pratica políticas conservadoras, proíbe cultos que não da religião islâmica e restringe as mulheres de vários direitos básicos. 

A Aramco, maior empresa estatal de petróleo do mundo, é da Arábia Saudita e patrocinadora da Fórmula 1. A parceria começou em 2020 mas promete durar vários anos, apesar de ir contra um dos objetivos do campeonato de diminuir a emissão de carbono até 2030. Por ser uma das maiores poluidoras do mundo, segundo o site Motorsport.com, um estudo recente indicou que a Aramco produziu 59,26 bilhões de toneladas de CO2 desde 1965, mais de 15 bilhões a mais do que qualquer outra empresa, o que desvia do objetivo original contra a poluição. 

O maior motivo: os quase 400 milhões de euros que prometem ser injetados na F1 durante os 10 anos de contrato. 

Na sexta-feira (25), os rebeldes houthis, da etnia xiita, que disputam o controle do do Iêmen e são apoiados pelo Irã, atacaram uma refinaria da Aramco na cidade de Jeddah, a 10 km da pista onde os pilotos estavam treinando. O motivo do ataque foi a Arábia Saudita estar do lado dos sunitas na guerra, que acontece desde meados de 2014 no Oriente Médio. Após a explosão, foi feita uma reunião com as autoridades sauditas, que decidiram manter o cronograma como o programado. 

Em 2021, a etapa sediada no país, em dezembro, foi a causa de muitos acidentes. Em razão de aumentar a segurança, os organizadores alargaram a pista – que vale ressaltar ser de rua e a segunda mais rápida – e até acrescentaram barreiras de proteção. Durante o treino classificatório do último final de semana, mais um acidente preocupante: Mick Schumacher acertou duas vezes na parede de uma das 27 curvas e foi levado de helicóptero para ser hospitalizado. O piloto felizmente estava consciente e saiu sem traumas, já o carro deu prejuízo de 1 milhão de dólares para a equipe Haas. Nessa situação o único que sofreu foi o bolso do Gene Haas, mas poderia ter sido mais uma tragédia por falta de segurança em uma pista só está na competição porque comprou seu lugar. 

O heptacampeão mundial Lewis Hamilton se pronunciou de maneira crítica na coletiva de imprensa de sexta-feira (25): “É obviamente alucinante ouvir as histórias. Ouvi dizer que há uma carta enviada para mim por um garoto de 14 anos que está no corredor da morte. Quando você tem 14 anos, você não sabe o que está fazendo na vida”. Além disso, afirmou ser totalmente contra o governo extremista e totalitário saudita e criticou a permanência da corrida dizendo que não se sentia confortável. Afinal, quem estaria confortável sabendo que um ataque pode acontecer a qualquer momento na sua frente? 

Além das contradições já mencionadas, a FIA lançou uma campanha em 2021 chamada We Race As One, iniciativa que promove a diversidade dentro da F1. Diversidade, essa, que é condenada na Arábia Saudita, onde a homossexualidade é punida com flagelação, chicotadas, prisão e até mesmo execução. De um lado, a campanha, do outro, o patrocínio milionário. Quem vence essa disputa? Se você respondeu o dinheiro, você acertou. Apesar de se dizerem a favor da liberdade e terem passado anos promovendo melhorias na segurança dos carros e das pistas, o investimento dos sauditas em troca de um evento no país falou mais alto e venceu a disputa.