Moda e militância: quando a moda abre portas para a minoria se pronunciar

Por Communicare

Na história da humanidade, as vestimentas sempre carregam uma simbologia. Vestir-se é um ato político.

Por Juliana Kopp

A moda, há anos, deixou de ser apenas sobre estilo. Na verdade, desde que a moda é moda, ela é também um espelho do comportamento social em cada período da história. É por isso que hoje entendemos que a escolha das nossas roupas nunca é em vão. Ela nos representa e transmite mensagens antes mesmo que falemos.

Ao longo do tempo, a moda esteve presente como estilos de vida por andar lado a lado com os movimentos sociais. Ainda na sociedade primitiva, as roupas poderiam indicar os bons caçadores e os não tão bons. Mais tarde, na Idade Média, eram usadas como indicadoras de poder para a nobreza, com seus panos rebuscados e tingidos com as mais raras tintas. E assim foram acompanhando as mudanças dos costumes nas sociedades do mundo, carregando sempre uma simbologia por trás das vestes.


O movimento feminista na moda

O mundo fashion foi, e em muitas situações ainda é, excludente para muitas mulheres. Analisar a moda durante todos esses anos nos permite conhecer a evolução da liberdade dos corpos femininos.

Ao final do século XIX, as mulheres lutaram, entre outras coisas, pelo seu direito ao voto e passaram a questionar a sua ausência no mercado de trabalho. Até esse momento, eram marcantes os espartilhos como autoafirmação de sua feminilidade. Quando passaram a ocupar postos de trabalho, a maior praticidade nas vestimentas começou a inovar os guarda-roupas femininos, como a confecção de jaquetas e de calças, com a protagonização da estilista Coco Chanel nesse cenário. Depois vieram as minissaias, os terninhos, a moda unissex e, cada vez mais, o reforço de que os corpos femininos são livres para serem como são.

A política nos desfiles 

Em muitas edições, os desfiles colocaram os protestos em um local de muita visibilidade: os palcos. Em 1971, a estilista brasileira Zuzu Angel, após perder seu filho para as crueldades da ditadura militar no país, colocou o luto em suas confecções, desenvolvendo um desfile que viria a ser um marco da expressão da política na moda. Seis anos depois, ainda ativa na resistência à ditadura militar, Zuzu foi assassinada pelo governo, fato confirmado mais de 40 anos após sua morte.

Outro exemplo é dos famosos desfiles criados por Ronaldo Fraga, estilista brasileiro que já colocou em suas peças, protestos contra as desigualdades e injustiças sociais, tais quais as lutas por representatividade na moda. 

O rosto de Marielle Franco estampado nas roupas de Ronaldo Fraga: protesto e indignação.
Foto: Agência Fotosite

O desfile, que trazia a imagem de Marielle Franco fazendo referência a seu assassinato, ainda que um protesto importante, trouxe indignação dos espectadores e, principalmente, da família de Marielle, que não foi comunicada sobre essa produção. A discussão foi sobre utilizar de uma dor de muitos para promover um evento que continua, depois, excludente. 

Protestos no Red Carpet 

Com o potencial que a moda tem de expressar nossas opiniões, inúmeras vezes foram os Red Carpets os responsáveis por mostrar através das roupas dos famosos que passavam por eles, protestos sobre diversos acontecimentos. Eventos como o Oscar, são ocasiões que atraem olhares do mundo todo e, portanto, para muitos artistas, esse é o momento ideal para expressar opiniões. Atrizes se uniram, por exemplo, contra a desigualdade de gênero e assédio sexual em Hollywood, combinando looks pretos.

O vestido de Natalie Portman, com os nomes de diretoras que nunca foram reconhecidas pela academia, como briga pela representatividade de mulheres no cinema. Foto: US Weekly

Hoje, com acontecimentos que exigem de nós posicionamentos, as camisas de times, camisetas com frases impactantes, estampas militares e até a camisa da Seleção, verde e amarela, nas épocas das eleições de 2018, carregam simbologias. Por tudo isso, são as roupas um grande exemplo de comunicação não-verbal, e a moda, como mais que comprovado, essencial para a expressão de quem nós realmente somos. Vestir-se é e sempre foi um ato político. 

Lebron James em apoio ao protesto na NBA pela #vidasnegrasimportam. Foto: Reprodução