DESCONSTRUINDO O FAST FASHION

Por Communicare

Suas raízes surgem com a Revolução Industrial de 1790, quando a confecção das peças é facilitada pelo surgimento da máquina de costura.

Por: Eduarda Koyama

De onde vêm as tendências

O conceito de “Fast Fashion” surge apenas em 1990, com o barateamento de matéria-prima e mão-de-obra. Porém, antes de falar sobre o impacto das Fast Fashions, é importante entender de onde surgem as tendências. Atualmente, os dois principais métodos são o Bubble up e o Trickle down.

Um exemplo de Bubble up são as calças Jeans, que surgiram entre a população proletária, que as usavam para trabalhar pois eram muito resistentes, a burguesia vendo isso, resolveu absorver essa tendência. Já o Trickle down é o inverso, é quando o ciclo de moda vai de cima para baixo.

A estudante de moda e criadora de conteúdo, Paola Ciccari aponta a moda como um movimento vertical. “Quando pensamos na moda, devemos vê-la como algo vertical. O Bubble up, por exemplo, é quando a identificação da tendência vem de baixo para cima, ou seja, é quando ela vem das camadas baixas e vai ascendendo até a burguesia”. Da mesma forma se faz o movimento contrário: da burguesia às camadas mais baixas. “E é isso que a gente entende como democratização da moda”, completa Paola.

Sendo assim, um exemplo clássico no interior das tendências, são as as bolsas baguette, popularizadas por marcas como a Fendi e a Prada, que a partir de suas produções no mercado impactam nas confecções de marcas que não são consideradas grifes a reproduzirem tais tendências à preços mais acessíveis. À vista disso, entender a cadeia de produção desses produtos é um ponto chave para se contextualizar sobre a construção das Fast Fashions em nosso cotidiano.

Mas, o que é o Fast Fashion? 

O Fast Fashion, ou “moda rápida”, consiste basicamente em peças de roupa que são fabricadas, consumidas e descartadas rapidamente. “As Fast Fashions produzem mais peças de roupa, porém em menores estoques. Porque se você lança cinco blusas que estão em alta, e seus clientes sabem que tem apenas cinco, eles vão tentar comprar o mais rápido possível. Então tem menores estoques, mais lançamentos, estudo de tendências, justamente para incentivar o público a comprar cada vez mais”, afirma Paola.

Outro ponto a ser refletido, é como o sistema capitalista se estrutura neste cenário, as Fast Fashions lançam cerca de 52 coleções em um ano, o que faz com que os consumidores se sintam sempre desatualizados e incentiva o hiperconsumo, diferente das Slow Fashions, por exemplo, que produzem apenas duas coleções anuais.

Principais impactos do Fast Fashion

FOTO: Stella Mccartney sustainability campaign.

Apesar das fast fashions representarem uma democratização da moda, trazendo tendências por preços acessíveis, elas também envolvem diversas problemáticas, tanto sociais quanto ambientais. Atualmente, a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, atrás apenas da indústria petrolífera. 

Isso ocorre porque dentro da indústria têxtil são usados muitos tecidos sintéticos, derivados de matérias primas geralmente produzidas pelo homem (inclusive o petróleo), como o poliéster. “Geralmente, tudo que é natural é renovável, e por ser renovável acaba tendo um custo maior. Além disso, acaba sendo um tecido melhor, mais confortável, mais durável”, afirma Paola. Portanto, ao produzir uma peça com uma quantidade limitada de dinheiro, é necessário baratear alguns pontos da fabricação.

No caso das Fast Fashions, o intuito é lançar tendências, então a maior parte do custo vai para a informação de moda (modelagem), ou seja, elas acabam tendo que baratear nos tecidos, utilizando-se de artefatos de segunda linha e à base de metais pesados, aumentando a emissão de gases tóxicos, o descarte de plásticos nos oceanos e, potencializando, a mão-de-obra precarizada ou até mesmo análoga à escravidão. “Nos processos de Fast Fashion, como são produzidas muitas coleções por semana, é muito comum que elas tercerizem a mão-de-obra, ou seja, elas trabalham com empresas que contratam vários ateliês de costura, para que vários costureiros atuem ao mesmo tempo. E isso tem uma grande problemática de manutenção e direitos trabalhistas por trás”, comenta Paola. 

O que fazer para mudar ?

Em oposição ao Fast Fashion, que ambientalmente, possui impactos extremamente negativos devido a produção de lixo altamente nocivo ao ecossistema, as Slow Fashion propõem produções sustentáveis, conscientes e sob demanda, ou seja, evita-se a produção desnecessária de lixo. Neste contexto, há também os brechós, que além de preços menores, colaboram para um ciclo de renovação da moda. 

Uma das soluções para as marcas que buscam ser mais amigáveis ao meio ambiente é o uso de tecidos biodegradáveis, que substituam os sintéticos sem um aumento grande no custo e, assim, popularizar o uso deles. Uma das observações de Paola, para essa questão, é a poliamida biodegradável, visto que é um marco para o momento atual da moda; a estudante, também, acredita que essa questão deve ser discutida entre os produtores e consumidores, pois estes devem avaliar suas possibilidades.“Se você tem o privilégio de escolher  não compactuar com essa indústria, escolha”, destaca Paola.

O conhecimento é necessário para mudar esses aspectos, os consumidores se informarem, saberem do que as peças são feitas e ter consciência de onde ela está vindo e o impacto ambiental por trás de tudo isso.“A melhor forma de se informar sobre um assunto é realmente pesquisando, hoje a gente encontra diversos produtores de conteúdo que falam sobre isso nas redes sociais. Então busquem se informar com produtores de conteúdo que sabem do que estão falando, busquem artigos, busquem leitura. Consumam veículos de moda”, ressalta a estudante.

Uma forma de se contextualizar sobre as problemáticas, os impactos e tudo o que se passa através daquilo que a sociedade consome no mundo da moda, é pelo aplicativo Moda Livre, planejado pelo grupo Repórter Brasil. O app é de fácil acesso, e tem como premissa central conteúdos voltados para o histórico da mão de obra de uma loja antes de ajudá-la financeiramente, além de temáticas que perpassam perante as Fast Fashion e o Slow.